“O pós-pandemia vai deixar sequelas nas vidas de todos, porque perdemos companheiros, parentas, anciões, bibliotecas”, destaca liderança das mulheres indígenas
07.08.2020
Há um ano, mais de 2 mil mulheres indígenas de 113 povos fizeram a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília, sob o lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Em plena pandemia, elas ocuparão as redes sociais, em 7 e 8 de agosto, na Assembleia das Mulheres Indígenas com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”
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Puyr Tembe é vice-presidenta da Federação dos Povos Indígenas do Pará e integra a iniciativa Voz das Mulheres Indígenas
Cinco meses após a declaração do novo coronavírus como pandemia, pela Organização Mundial da Saúde, os povos indígenas brasileiros seguem mobilizados para prevenir o contágio nas aldeias, tratar adequadamente pessoas doentes, enfrentar as vulnerabilidades acentuadas pela pandemia e reorganizar as comunidades diante dos efeitos da Covid-19.
Em entrevista à ONU Mulheres Brasil, Puyr Tembe, vice-presidenta da Federação dos Povos Indígenas do Pará e integrante da iniciativa Voz das Mulheres Indígenas, conta que a principal mobilização em agosto, alusiva ao Dia Internacional dos Povos Indígenas, é grande assembleia on-line com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”, de 7 a 8 de agosto, nas redes sociais da APIB. A ONU Mulheres participará da Assembleia das Mulheres Indígenas neste sábado (8/8), às 14h30, e será representada pela gerente de Programas Ana Carolina Querino.
“Com o agravamento das violências aos povos indígenas durante a pandemia da Covid-19, nós entendemos e decidimos que é necessário demarcar e fazer a luta através das telas. Mais uma vez, iremos realizar a maior mobilização das mulheres indígenas nas redes”, conta Puyr Tembe. “Como se calar diante de um ataque? Existe a chance de mudar isso, porque nós somos a cura da Terra!”, completa.
A mobilização on-line rememorará a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, que reuniu mais de 2 mil mulheres indígenas de 113 povos, em agosto de 2019, em Brasília, sob o lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Em plena pandemia, elas ocuparão as telas e as redes sociais, em 7 e 8 de agosto, na Assembleia das Mulheres Indígenas com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”.
“Para nós, mulheres indígenas, nós também somos a terra, pois a terra se faz em nós. Pela força do canto nos conectamos por todos os cantos, se faz presente os encantos, que são nossas ancestrais. A terra é irmã, é filha, é tia, é mãe, é avó, é útero, é alimento, é a cura do mundo”, apresenta o texto convocatório da mobilização.
Liderança política – Para Puyr Tembe, “as mulheres indígenas vêm, ao longo dos anos, com as suas estratégias de luta e o seu protagonismo. Isso, internamente, era muito visível. Hoje, felizmente, a gente consegue estar com esse protagonismo não só internamente, mas vir externamente. É válido considerar que hoje, dentro dos territórios indígenas, as mulheres indígenas estão na linha de frente das retomadas. Estão na linha de frente da proteção territorial. Isso com muita força e com muita garra. A gente tem visto isso crescer”, considera.
Tembe avalia que “nos últimos dois anos, a gente foi se aperfeiçoando e se qualificando politicamente, interagindo e adentrando aos espaços políticos. As mulheres indígenas estão ocupando espaços políticos. Está crescendo essa luta. As mulheres indígenas estão vendo e percebendo a importância de ocupar os espaços Executivos e Legislativos das esferas municipal, estadual e federal. Isso mostra que, cada vez mais, a força e a potência das mulheres têm tido sucesso”.
Puyr Tembe ilustra como resultado dessa articulação a eleição da primeira deputada federal indígena. “Exemplo disso é o mandato da deputada federal Joênia Wapichana, que conseguiu estar nesse espaço político. E também o espaço que as mulheres indígenas têm buscado dentro das assessorias de alguns parlamentares”, afirma.
Indígenas e Covid-19 – Distanciamento e isolamento social trouxeram novos desafios para os povos indígenas, que têm encontrado nas novas tecnologias uma das estratégias de mobilização interna e externa. “A gente está se adaptando e fazendo a defesa pelas telas. Logo, quando iniciou esse processo, fomos um dos primeiros segmentos a vir para as telas e denunciar, trazer a realidade dos povos indígenas e o contexto. A gente tem feito um trabalho árduo diário, com as bases, com as mulheres, os guerreiros, as lideranças, os caciques. A gente está trabalhando com dados e informações concretas”, conta Puyr Tembe ao mencionar o monitoramento rigoroso para aferir o impacto da pandemia entre os mais de 200 povos indígenas. Um esforço que vai ao encontro do Plano Emergencial de Enfrentamento da Covid-19 lançado no final de junho pela APIB.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, de 6 de agosto, a pandemia Covid-19 registra 2,9 milhões de contágios e mais de 98 mil óbitos. Conforme o monitoramento da APIB, na mesma data, havia 22.325 casos confirmados de contágio entre pessoas indígenas, 148 povos afetados e 639 óbitos confirmados.
Puyr Tembe informa que “cinco das 10 terras indígenas mais vulneráveis à Covid-19 contam com registros de povos isolados e estão na Amazônia, e hoje uma de nossas maiores preocupações de que a pandemia chegue nestes territórios”. Ela assinala que os conflitos territoriais se acentuaram na pandemia, provocando invasões de terras e contágios decorrentes da circulação de não-indígenas nos territórios demarcados. “À pressão de grandes e médias mineradoras, se soma a invasão em massa de garimpeiros, madeireiros, colonos e plantadores de maconha, que aproveitaram a pandemia para intensificar ainda mais a extração e plantação ilegal. Exemplo disso são as terras indígenas Yanomami (RR), Raposa Serra do Sol (RR), Alto Rio Negro (AM) e Waimiri-Atroari (AM/RR), Alto Rio Guamá, Trincheira Bacana e Cachoeira Seca”.
Tembe comenta o drama por que passam povos isolados e o movimento indígena brasileiro para preservar povos e territórios. “As organizações indígenas vêm, a todo instante, trazendo a real situação e o risco que estamos vivendo diariamente e que ronda os nossos povos e os que também vivem isolados. Mesmo diante do enorme risco que milhares de invasores representam para os povos isolados devido à Covid-19, nenhum plano para expulsar os intrusos ou um protocolo específico de prevenção foi implementado. E nós mulheres temos sido uma das principais denunciantes”.
“Novo normal” – O impacto da pandemia Covid-19 tem sido bastante intenso e doloroso entres os povos indígenas. “Estamos preocupados com o pós-pandemia. O pós-pandemia vai deixar sequelas nas vidas de todos nós até porque perdemos companheiros, parentas, nossos anciões, nossas bibliotecas. Isso é uma perda irreparável. Vidas de muitos anciões se foram. Esses não voltam mais. Bibliotecas que desapareceram de muitos povos indígenas. A gente está tentando lidar com esse cenário. Não é fácil porque famílias foram impactadas. Povos indígenas perderam caciques, lideranças”, reitera.
O chamado “novo normal” decorrente dos cuidados sanitários necessários durante e após a pandemia da Covid-19 está sendo discutido pelas lideranças indígenas e implica medidas constantes para a preservação dos povos e territórios. “A gente está tentando reanimar o nosso povo, porque a luta não pode parar. A luta não vai parar. Não é uma pandemia que vai fazer com que povos indígenas recuem diante dessa situação que está acontecendo no mundo. Nós, todos os dias, estamos fortalecendo umas às outras para que a gente possa ter fôlego e vida para seguir adiante, lutando por uma vida melhor e um território digno”, encoraja Puyr Tembe.