Capacitação, emprego e autonomia são focos da 10ª edição do projeto Empoderando Refugiadas
25.02.2025
Mais de 630 mulheres refugiadas já foram formadas pela iniciativa conjunta entre a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres e Pacto Global – Rede Brasil
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Há cinco anos Carmem é contratada em uma empresa em São Paulo, vaga que conquistou após concluir a formação no Empoderando Refugiadas. Foto: ONU Mulheres/Cláudia Ferreira
Duzentas mulheres refugiadas vão ter a oportunidade de se formar e conquistar uma vaga de emprego formal no mercado de trabalho brasileiro. No ano em que completa uma década, o projeto Empoderando Refugiadas expande atuação para Porto Alegre, Caxias do Sul e Florianópolis e segue com a oferta de capacitação em Boa Vista, Brasília e Curitiba. O lançamento da nova edição ocorreu nesta sexta-feira (21) em evento online promovido pelas agências da ONU.
São oferecidos cursos profissionalizantes nas áreas de Atendimento e Vendas, Processos Logísticos, Costura e Acabamento, por meio de parceiros como o Senac e Senai. Após formadas, elas participam de entrevistas de trabalho. Para aquelas que estão em Roraima, a Operação Acolhida apoia a interiorização da família para o destino onde a formada vai trabalhar. O impacto não se restringe às refugiadas, mas se estende também aos familiares que têm a oportunidade de reconstruírem suas vidas. Em 2025, estima-se apoiar 800 pessoas refugiadas.
“A refugiada pode liderar o processo de integração da sua família no Brasil a partir do seu empoderamento socioeconômico e do desenvolvimento de mais habilidades laborais. Muitas participantes do Empoderando Refugiadas vivem com suas famílias em abrigos e é a partir deste processo de capacitação e do preparo para o mercado de trabalho brasileiro que as famílias têm a chance de reconstruírem de forma digna sua vida no país, seja pelo processo de interiorização ou por integração nas cidades onde estão morando”, explica Raquel Trabazo, representante adjunta do ACNUR no Brasil.
O projeto oferece oportunidades também para mulheres refugiadas com deficiências, doenças crônicas e únicas provedoras de renda de uma família com pessoas com deficiências. A diversidade é uma das premissas da iniciativa, que também abre portas a refugiadas LGBTQIA+ e maiores de 50 anos.
“As mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado, então, ao chegarem em um novo país, onde não têm acesso a uma rede de apoio, possuem mais dificuldades para se inserirem socialmente e economicamente. Muitas mulheres saem dos seus países acompanhadas de crianças e outras pessoas que necessitam de cuidados e, ao dedicar seu tempo para prover esses cuidados, elas possuem menos tempo para buscar oportunidades de trabalho decente e até mesmo de se integrarem na sociedade, o que afeta a sua autonomia econômica”, adiciona Ana Carolina Querino, representante interina de ONU Mulheres Brasil.
Professora de educação especial na Venezuela, Zafiro buscou proteção e a oportunidade de reconstruir sua vida no Brasil. Em 2022, foi selecionada para participar do Empoderando Refugiadas. Aprendeu sobre o mercado de trabalho brasileiro, noções de logística e foi aprovada para uma vaga de emprego na Lojas Renner em Cabreúva (SP). Zafiro iniciou como auxiliar de logística e aos poucos foi conquistando espaço e sendo reconhecida. Em 2024, foi convidada a fazer um curso de três meses de Liderança na empresa. Atualmente, junto com outro líder e um supervisor, coordena uma equipe de 28 pessoas.
“Quando vi que tinha sido contratada, parecia um sonho, não conseguia acreditar. Em uma semana, eles organizaram toda a documentação e tudo para podermos viajar. Fui acompanhada dos meus três filhos. Fomos muito bem recebidas, nos mostraram toda a empresa e nos acolheram muito bem”, relembra.
E o que o Brasil ganha com isso?
A começar pelo mercado de trabalho: empresas que contratam confirmam que o ambiente laboral ganha com a inovação trazida pelos diferentes aspectos culturais, com profissionais refugiadas que se dedicam e permanecem nos postos de trabalho por mais tempo e com a integração que acontece com trabalhadores brasileiros que aprendem na troca com essas pessoas.
As empresas que decidem contratar mulheres refugiadas recebem workshops, mentorias e acompanhamentos das agências da ONU para que possam não somente contratar a pessoa, mas acolher, incluir e desenvolver a profissional refugiada. Esse processo de preparação e amadurecimento das companhias se dá em parceria com o Fórum Empresas com Refugiados, liderado pelo ACNUR e Pacto Global, que já conta com mais de 130 membros do setor privado.
“O engajamento de empresas na inclusão produtiva de refugiadas promove a diversidade, inovação, justiça social e fortalece a economia. Oferecer oportunidades e apoiar o desenvolvimento a esses profissionais é fundamental para uma sociedade mais equitativa e sustentável”, comenta Guilherme Xavier, Diretor- Executivo Interino do Pacto Global-Rede Brasil.
A comunidade de acolhida, neste caso a brasileira, também é positivamente impactada pela iniciativa: crianças que passam a conviver com crianças refugiadas nas escolas aprendem sobre idiomas, cultura e respeito às diferenças. Espaços de convivência sociais ficam cada vez mais diversos com a presença de pessoas refugiadas. Já não é incomum encontrar restaurantes de comidas venezuelanas, cubanas, afegãs, congolesas e de tantas outras nacionalidades pelo Brasil. Músicas, festividades e arte passam a fazer parte do contexto cultural brasileiro.
A venezuelana Carmen está empregada há cinco anos na mesma empresa que a contratou após sua formatura no Empoderando Refugiadas. Ela participou da primeira turma voltada a refugiadas com deficiência. Foi contratada por uma rede de shopping center e interiorizada para São Paulo. Foi por meio da autossuficiência conquistada que ela conseguiu trazer os filhos da Venezuela.
“O projeto transformou minha vida ao me dar a oportunidade de estudar para trabalhar numa empresa com prestígio, mesmo com a minha deficiência e minha idade avançada. Tive a chance de me estabilizar economicamente e poder dar um bom futuro para meus filhos”, comenta.
A 10ª edição do Empoderando Refugiadas é uma realização do ACNUR, ONU Mulheres e Pacto Global – Rede Brasil. Empresas e organizações interessadas em apoiar podem entrar em contato com empoderandorefugiadas@pactoglobal.org.br Para mais informações sobre o projeto, acesse: empoderandorefugiadas.org.br.